descobrimentos

"There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosofy" - W. Shakespeare

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Rui Valente
sexta-feira, agosto 01, 2003
  Prado Coelho e depois férias Não posso deixar de comentar, antes de ir de férias, as palavras de Prado Coelho no "Público" a respeito de blogues. Prado Coelho, que é uma figura notável foi injusto em quase tudo o que disse a propósito dos blogues. Mas há uma afirmação sua com a qual discordei de modo especial e que se prende com o trajecto que antes era necessário fazer para se conseguir escrever num espaço público, trajecto esse repleto de exibições de mérito literário, de interesse do texto e de comunicabilidade. Não creio que tenha razão. Desde logo, porque sempre houve quem escrevesse e emitisse a sua opinião em espaços públicos - revistas, jornais, etc... - sem qualquer anterior demonstração de mérito, ou de interesse. O jornalismo português tinha no século XIX, a (falta de) qualidade e a (falta de) mérito que Eça tão bem descreveu em "Os Maias". Em segundo lugar, durante o Estado Novo, não havia mérito, interesse ou qualidade que bastasse a quem não emitisse opiniões convergentes com as do regime: a censura tratava de filtrar as opiniões. Em terceiro lugar, depois do 25 de Abril qualquer gato pingado, desde que dotado de voz esganiçada, fanatismo em doses industriais e bons contactos nos barbudos do exército ou nos partidos de esquerda ou extrema esquerda teve a possibilidade de emitir a sua opinião onde quer que fosse. Além do mais, era muito, muito bom que todos quantos hoje escrevem nos jornais tivessem qualidade, mérito e interesse. Mas não é verdade. É verdade quanto a Prado Coelho, Vasco Pulido Valente, António Barreto, Miguel Sousa Tavares, José Pacheco Pereira. Só que estas andorinhas não fazem, infelizmente, a primavera.
Acresce que não me parece que a falta de curriculum retire mérito, interesse ou comunicabilidade a um determinado texto, qualidades que nele podem perfeitamente existir, qualquer que seja o passado do seu autor.
Numa sociedade em que tanto nos queixamos de falta de participação democrática e dizemos todos palavras de circunstância quando assistimos à abstenção verificada em cada acto eleitoral, peço a Prado Coelho que me deixe elogiar o papel democrático desempenhado por muitos blogues.
Agora vou de férias. Muito obrigado aos quase 300 vistantes em apenas 2 semanas.  
  Conversa de Caserna Ontem, muitos militares jantaram. A ideia era apoiar o General Viegas, que perdeu confiança no Ministro. Não se percebeu porquê, mas se calhar não era essa a intenção. Bastava organizar um repasto no fim do qual se dissesse: Portas, não gostamos de ti. Falou-se em falta de respeito, mas nunca se ouviu o Ministro dizer mal dos militares na praça pública. Em Portugal há muitos Generais, há Generais a mais para tanta paz. Por outro lado, a intervenção dos militares na política continua a deixar muito a desejar. Porque sempre andaram ao sabor do vento. Ajudaram a implantar a República, levaram ao poder Sidónio Pais, implantaram o Estado Novo, fizeram o 25 de Abril, momento lindíssimo na nossa história, mas estiveram de corpo e alma no PREC, barba e bigode crescidos, num dos momentos mais trágicos da nossa história. Andam ao sabor do vento. Nos últimos anos, tinham-se habituado a uma tutela cinzenta e quase inexistente - Fernando Nogueira, Castro Caldas, etc... Eu não sou um apologista do Portas. Mas agrada-me sinceramente que PP incomode muita gente. Esta repristinação dos anos 70 é miserável e perigosa, porque os comensais de ontem insinuaram um pedido de demissão de um Ministro. Foi uma espécie de Conselho da Revolução à hora da janta. Vamos esquecer que aconteceu, para evitar a congestão. 
quinta-feira, julho 31, 2003
  Escutas telefónicas em Portugal: a classe política "Fulano: ó pá, não é que o gajo, pá..., não sei pá, eu pensava que ele...
Beltrano: não me digas, pá!
Fulano: porra! palavra de honra, o gajo é sempre assim e eu heee... heeee... até já lhe disse para ter juizinho...
Beltrano: não me digas pá, então o gajo pá não te tinha dito que bastava falar com o outro gajo pá?
Fulano: não me lixes, então para que é que o gajo ia falar com o outro gajo se o outro gajo não está cá pá !?!
Beltrano: ó pá olha depois falamos tá bem
Fulano: tá pá e olha...o gajo que se lixe hã?"

É isto. Mete medo o registo da conversa política em Portugal quando não está ninguém a assistir. A divulgação das conversas telefónicas a que se assistiu nos últimos dias é gravíssima. E não é só pela violação do segredo de justiça - peço desculpa por não aderir à discussão acerca da correcta utilização das escutas e da sua suficência para a manutenção da prisão preventiva porque sou advogado e incomoda-me bastante emitir parecer jurídico sobre matéria processual reservada, mas violada. Em todo o caso, só o Juiz conhece o processo.
Já posso aderir, outrossim, à discussão que ficou entregue aos cidadãos e que se prende com a qualidade da conversa telefónica que foi divulgada. E aí tenho de repreender quem atirou a referida conversa para a praça pública, pela tremenda falta de sentido estético. As conversas do contra-informação têm muito mais qualidade do que a divulgada e é isso que mais me arrepia... 
  Bob Hope Redescubro aqui duas piadas de Bob Hope, homenageando-o desse modo.
"O Banco é aquele sítio onde só nos emprestam dinheiro se conseguirmos provar que não precisamos dele para nada" e "Não me dava jeito nenhum morrer, era algo que teria péssimas consequências na minha carreira"... 
quarta-feira, julho 30, 2003
  O lado da TSF Discute-se na blogosfera (cfr. santa ignorancia; outro, eu, guerra e pas e, como não podia deixar de ser, mar salgado)se a TSF é, ou não, de esquerda.
Ora, a minha opinião é a de que a TSF é claramente de esquerda, sendo que a discussão se deveria centrar na questão de saber se essa orientação ideológica é, ou não é assumida, é ou não evidente. Mesmo aí, se não é assumida, é evidente.
Basta ouvir a TSF durante 15 minutos (desde que se ouçam os noticiários ou o "Freud e Maquievel) para se perceber que assim é. É tão claro como o Independente ser de direita, tão claro como o Expresso ser de centro-esquerda-mas-não-muito-se-não-as-pessoas-reparam-bloco-central-anti-portas-anti-coligações-de-direita, tão nítido como o Público ter um director de centro direita e os demais jornalistas tenderem a ser de esquerda, tão evidente como a Bola ser benfiquista, o Record ser sportinguista e o Jogo portista.
Mesmo não sendo eu um "esquerdista", tenho o próprio Carlos Vaz Marques na conta de um. Se o interpretei mal, peço-lhe desde já desculpa, mas é assim que o vejo e é assim que o admiro e respeito.
Do mesmo modo, mesmo não sendo de esquerda, ouço a TSF todos os dias, mas nunca passou ver na TSF uma rádio "objectiva". Isto nada tem que ver nem com "rigor jornalístico", o qual entendo existir na TSF, nem com honestidade profissional que nessa rádio não falta. Agora isso da "imparcialidade" ideológica no jornalismo é uma tremenda treta, que pasmo que ainda gereb tantos escrúpulos em Portugal. É uma treta equivalente à de sustentar (ou acreditar) que os árbitros não são adeptos de qualquer clube e que são menos sérios se o forem...
Não entendo, por fim, por que artes mágicas, ou cambalhotas cerebrais se pode sequer achar que um ser humano, em qualquer momento da sua vida, pode "desligar" por magia as suas convicções. Com o devido respeito pelo Carlos Vaz Marques, que muito e sincero é, essa ideia de isolar as convicções numa gaveta, bem traduz uma maneira (legítima) de pensar estilo "homem novo" ou "amanhãs sorridentes", é ela própria bem típica da esquerda.
Digamos que tenho para mim que as convicções de cada um são "pessoais e transmissíveis" em relação a tudo o que faz...
Disse. 
terça-feira, julho 29, 2003
  Demissões = Audições em comissão parlamentar de inquérito Estranha forma de vida. Cada vez que alguém se demite em Portugal, as comissões parlamentares querem saber porquê. Quem se demitiu explicou, quando se demitiu, porque se demitia, mas os deputados querem sempre saber mais para "apurar eventuais responsabilidades políticas". Se quem se demite, se demite por razões pessoais, então os deputados querem saber que razões pessoais são essas. Se quem se demite, se demite por ter perdido a confiança no ministro, os deputados querem indagar porque razões a confiança se perdeu, ainda que as razões tenham sido avançadas quando da demissão.
Este bisbilhotice é absolutamente enervante e peço daqui à comunicação social que, pura e simplesmente, censure estas actividades, por não preencherem o mínimo grau de relevância e interesse. Por caridade...
Vamos lá ser claros, a quem é que interessa que se tenha demitido o CEMA? ou outro qualquer chefe do estado maior? a menos que o ministro lhe tenha batido ou chamado nomes feios, sai um militar e entra outro, sucessão até saudável atento o "low profile" que deve caracterizar o comportamento das forças armadas numa democracia. Vai-se embora o militar "X" e entra o militar "Z". Nenhum deles responde perante o país, apenas perante o ministro e os colegas de caserna. Não está bem? Pois até logo e boa reforma? Perdeu a confiança? Está perdida e não se fala mais nisso. Ora bolas, que perda de tempo. Não há paciência mesmo. Deixem o homem ir embora à vida dele sossegadinho. Este pobre que agora se demitiu não era por ninguém conhecido, foi conhecido no dia em que se demitiu e cairá outra vez no esquecimento.
Ainda assim, media e deputados não deixam de se alimentar destes episódios da política minimalista.

 
sexta-feira, julho 25, 2003
  As duas américas Não resisto a retomar aqui a discussão em curso no Mar Salgado, a que a Santa Ignorancia já aderiu. Tenho, de resto, alguma pena que não tenhamos o privilégio de poder trazer um ponto de vista abrupto a esta discussão.

Há duas américas e, além do mais, um enorme paradoxo permanente nos EUA. Na verdade, se não existe, em termos partidá¡rios, uma esquerda americana, antes um partido de centro e centro-direita e um partido de direita e ultra-direita, há, não obstante, um fosso tremendo entre Democratas e Republicanos.
Os Democratas traduzem tendencialmente os EUA de vocação universalista, que se sentem bem no resto do mundo, que olham para a Europa com alguma admiração. Aém disso, são o melhor retrato da misturada étnica e cultural que são um traço dominante na história dos EUA. São, em traços muito gerais, o espelho de uns EUA de "missão".
Os Republicanos são, pelo contrário, os paladinos dos valores tradicionais dos EUA, centrados sobre si mesmos, em tudo auto-suficientes, muito na sequência da colozinação protestante branca das américas. São, a bem dizer, uns EUA de "comunhão".
Os EUA da "comunhão" são, a meu ver, um incómodo permanente para a humanidade. Por várias razões.
Em primeiro lugar, porque a defesa de valores tradicionais com repulsa pelos valores tidos por europeus são um absurdo, na medida em que se traduz num tradicionalismo que rejeita a tradição. O que fica é um conjunto cultural inevitavelmente pobre de 200 anos, assente numa visão sulista dos EUA, que bem se traduz numa religiosidade cristã cheia de graves equí­vocos (vd as enormes dificuldades das igrejas protestantes brancas na rejeição dos fenómenos racistas) e numa visão paroquial do universo.
Em segundo lugar porque os EUA da "comunhão" negam, por natureza, as origens, a substância, a razão de ser da sua constituição e dos "fundadores" da sua nacionalidade, todos eles "missioná¡rios" por excelência. Daqui decorre, sem surpresas, uma inevitá¡vel secundarização dos valores democrá¡ticos e dos direitos humanos. A auto-defesa não tem limites: cada estrangeiro é um suspeito, até cada nacional pode tornar-se rapidamente um alvo a abater.
Em terceiro lugar, porque a ideia da auto-suficiência civilizacional gera, em si mesma, uma profunda intolerância (que na Europa, diga-se em abono da verdade, se encontra sem dificuldades, numa certa esquerda festiva).
Não se pode, além do mais, estranhar que quando os EUA da "comunhão" têm de intervir no "resto do mundo", o disparate seja o padrão de conduta. De facto, a intervenção destes EUA no mundo pode retratar-se através da figura do rancheiro texano, bom pai de família, bom protestante branco, que desconfia de italianos, latino-americanos, judeus, irlandeses, muçulmanos (se houver mais, digam), que fez conseguiu, a custo, a sua "graduation" que é enviado para participar activamente da história da humanidade...
Guantanamo é um exemplo escolar do que atrás se disse. Note-se, de resto, que são estes EUA se colocam na posição de ser comparados a Cuba em matéria de direitos humanos, o que é, em si mesmo, perfeitamente eloquente. Alguém se lembra de ver os EUA de Bill "Lewinski" Clinton colocados em tamanha comparação (não contam Ruben de Carvalho ou Fernando Rosas, para quem a democracia acaba na ala esquerda do PS..)?
Há duas américas, sim senhor. E, infelizmente, a luta entre ambas é de uma importância extrema para o mundo em que vivemos (como estaria Timor, sem um governo Democrata nos EUA em 1999/2000?).
Deus queira que triunfe a américa do Sr. Washington, do Sr. Franklin, do Sr. Adams, do Sr. Jefferson, do Sr. Roosevelt, do Sr. Kennedy, do Sr. Luther King e até do Sr. Clinton. God bless essa América!
 
  Publicidade O blog jaquinzinhos não prescinde de um sentido humor inteligente e corrosivo e pergunta hoje: "quanto não terá pago a Siemens para o Ferro Rodrigues mostrar o seu Nokia?".
Sem comentários. 
quinta-feira, julho 24, 2003
  Double talk nos EUA A não perder a discussão em curso no Mar Salgado
  Mário Soares descobriu o processo penal português

O Dr. Soares é uma figura pública portuguesa incontornável, mesmo para mim, que não o admiro de modo algum. Mas enfim, teria lugar num senado, se existisse.
Continuam intactas no Dr. Soares, as suas amplas capacidades de colagem ao politicamente correcto do momento, ao lugar comum e à vontade de ganhar votos, mesmo quando não é candidato a coisa alguma. O Dr. Soares, que rejeitou há uns anos as teses do Dr. Cavaco sobre as "forças de bloqueio", parece ter aderido a elas. O que, em abono da verdade, não pode surpreender quem quer que seja, posto que estamos na presença de famoso "catavento" político.
Mas há limites para a falta de memória nacional... Ó Dr. Soares, precisou Vª Exª de chegar a 2003 e ver o PS aflito com a Casa Pia, para descobrir, enfim, o processo penal português? Não foi Vª Exª várias vezes Primeiro-Ministro e Presidente da República? Nem uma chamada de atenção, um comentariozinho entre 1976 e 2002? É que, veja bem, pelas minhas contas, Vª Exª integrou as mais altas esferas do poder em Portugal durante 16 anos!

É, Dr. Mário Soares, antes do caso Casa Pia, já havia processo penal em Portugal. Tem alguns defeitos, sim senhor. Não tantos como está na moda dizer, mas tem alguns, concede-se. Defeitos que já existiam antes de atingirem o PS.
O Ferrinho pode ser irresponsável tanto quanto quiser, enquanto não fôr poder (credo...) e lutar diariamente pelo Berlusconização da vida política portuguesa. Mas Vª Exª? Francamente.
Este blog sugere respeitosamente a Vª Exª que adquira, enfim, um Código de Processo Penal e nele instale um padrão. 
quarta-feira, julho 23, 2003
  A Casa de Tormes

Estas são, verdadeiramente, más notícias. A Fundação Eça de Queirós corre o risco de fechar, sendo que custa anualmente a miserável quantia de € 250.000 (é, não leram mal, apenas duzentos e cinquenta mil euros por ano). O país tem agora uma belíssima oportunidade de mostrar que alguma coisa mudou em relação ao que Eça tão bem retratou. Ninguém vai falar muito da Casa de Tormes, até porque a nossa esquerda intelectual gosta de boicotar a cultura que lhe é menos útil, ou menos auto-promotora e, por isso, dedicará à Casa de Tormes a mesma indiferença que dedica aos Madredeus, a Manoel de Oliveira, a Agustina, a Sophia de Mello Breyner etc, etc, etc...
A propósito da cultura, há sempre milhares de autênticas taínhas culturais que, em Lisboa ou no Porto, mendigam por subsídios que muitas vezes servirão para produzir eventos, obras e espectáculos de qualidade mais do que duvidosa, a que assistirão entre 7 a 15 pessoas (autor e pessoal de produção incluído).
Só que a Casa de Tormes não tem taínhas reivindicativas que clamem pela sua sobrevivência. É apenas uma Fundação na qual se invoca a memória de um dos nossos maiores escritores.
Mas não devia desaparecer. Eu concordo com o apertar de cinto imposto por este governo, para limpar uma casa que as "Marias malucas" que lá estiveram antes deixaram desarranjada. Mas a luta contra o défice tem de ter excepções. Entre essas excepções tem de estar a Casa de Tormes. Até para que possamos tentar esquecer a Casa Pia, a Casa da Fatuxa, a Casa Moderna e outras casas, que nos fazem perder muito, muito, muito mais do que €250.000 por ano. Ah: e não importo nada que para manter a Casa de Tormes se deixe de subsidiar, por ano, um dos 10 ou 15 filmes que ninguém vê.

 
"There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosofy" - W. Shakespeare

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